Definir William Shakespeare não é uma tarefa fácil. Conhecido como “Bardo de Avon” (referência a Strattford-upon-Avon, cidade origem do poeta) ou simplesmente “The Bard” (O Bardo, em tradução literal). Sua história é tão complexa quanto sua obra e muitas vezes seu brilhantismo é ofuscado pela falta de capacidade leitor moderno em compreender Shakespeare em sua essência. Muitas vezes, o poeta chega a ser comparada aos pífios romances novelescos globais ou até mesmo sagas amorosas vampirescas. Por parte da crítica há sempre o foco nas suas obscuras origens e nessa busca incessante para descobrir quem realmente foi Shakespeare, se ele realmente existiu… Essa bestial e insignificante busca mata por completo todo um trabalho de retratos históricos e do estudo do próprio ser humano. Antes de tudo, o dramaturgo (acho que não preciso mencionar com clareza este detalhe conhecido por todos) foi o primeiro homem moderno, assim como as obras que o seguem.
Bebendo nas fontes de Plutarco, iniciando assim o ciclo romano com obras como Ricardo II, Henrique IV, Henrique VI e Ricardo III. As influências Shakesperianas não se encerram por ai, pois ele ainda navega na própria história inglesa. Ainda alcançamos uma discussão de cunho extremamente filósofico sobre a existência humana, trabalhada séculos antes do próprio autor, pelos Hindus. Essa passagem é caracterizada pela célebre frase “Ser ou não ser, eis a questão”, presente no homólogo discursado por Hamlet. Dentre esses exemplos citados e mais uma outra infinidade, podemos ter uma noção de quem é Shakespeare, não no seu íntimo, como sua verdadeira posição social como muitos vem buscando, mas quanto ao seu Eu Real, essencial. Desta forma entramos no ponto chave deste artigo, caro leitor. Seria possível haver um mundo sem Shakespeare?
Não precisamos viajar muito longe para chegar ao responsável por criar um mundo sem o bardo. Isso mesmo! Ele se encontra na própria Inglaterra, terra natal de Shakespear e. Porém, este escritor que teve a capacidade de criar um mundo sem o poeta nacional inglês, nasceu exatamente em 26 de Julho de 1894 no condado de Surrey. Por pura ironia do destino, morreu em 22 de novembro de 1963, no mesmo dia em que John F. Kennedy foi assassinado. Quem é ele? Ao meu caro leitor ignaro as pistas não ajudaram muito, mas a você, sim! Você mesmo! As pistam levam a ninguém mais e ninguém menos que Aldous Leonard Huxley. E a obra que me refiro é aquela que provavelmente é a sua “obra-prima”, Admirável Mundo Novo. Esta que merece um parágrafo exclusivo com sua análise em relação ao íntimo universo Shakespeariano.
A começar pelo título que trata-se de uma bela ironia a fala da belíssima Miranda, filha de Próspero (Duque de Milão), dita a seu pretendente Ferdinando. Miranda profere as seguintes palavras a respeito dos homens e do mundo em que eles vivem (já que ela se encontrava presa a uma ilha com seu pai e criaturas sobrenaturais): “Admirável mundo novo que tem tais habitantes!”. Porém, na obra de Huxley esta passagem além de se fazer presente no título acaba também sendo fruto de ironia do próprio protagonista, conhecido como John, um “selvagem”. Aldous Huxley cria um mundo mecanizado, onde cada um se coloca no seu devido lugar com a ajuda da biologia e de técnicas de “controle mental” como a Hipnopedia. A civilização é dividida por castas (tal como é na Índia) e os inferiores são desprovidos de qualquer inteligência superior que os façam questionar sua posição. Uma das iniciativas para se realizar tal ato é a redução da quantidade de oxigênio presente no cérebro, o que o faz atrofiar, em outras palavras, deixar “mais burro” o indivíduo. Outra medida é a aversão dos livros por um método completamente behaviorista. Mas o que todas as classes tem em comum, sejam aquelas do topo da pirâmide como aquelas abaixo: aversão ao velho e a solidão. Exatamente! Livros são velhos, de séculos atrás são proibidos. Filmes somente os “sensoriais” que são movidos somente a instintos como som e imagem (qualquer semelhança com os filmes em 3D hoje…). Outra medida terminantemente proibida é a solidão. De acordo com os superiores, ela causaria uma certa instabilidade, pois o ser seria capaz de pensar por si próprio sem sofrer influências e chegar a conclusões drásticas capazes de causar instabilidade na sociedade como um todo (isso também não tem nada haver com os dias de hoje, acredite…). Bom, você deve então saber porque Shakespeare entra na situação. Não!? Ora, basta voltar ali acima e ver o fato dos “livros ultrapassados” e chegará a conclusão que as obras do bardo é um deles. Se não há Shakespeare, não há o amor vivido na sua plenitude. Se não há o amor, temos aí o já mencionado sistema mecanizado. Em Admirável Mundo Novo ninguém é de ninguém. Está terminantemente proibido o apego, sentimentos que afloram a pele. Tudo funciona no mais restrito relacionamento sexual entre homem e mulher basicamente e, sem a dita “reprodução” já que todos são feitos em laboratórios.
John, o nosso protagonista é encontrando em uma reserva e foi praticamente o único remanescente que leu e viveu Shakespeare na sua essência. O jovem se apaixona, mas a sua “amada” apenas um vê como um pedaço de carne bem irresistível, e percebendo isso ele a despreza com todas as forças e não chega extrair absolutamente nada da moça que sonhava com uma maravilhosa noite excitante. Huxley nos mostra o que acontece com um mundo sem William Shakespeare, em um mundo sem o verdadeiro amor. Digo a você caro leitor que se desejas saber a importância do poeta nacional inglês para o mundo, saber talvez porque ele é um dos mais importantes ícones literários e porque imensa influência até os dias de hoje… Se quiser a resposta destas questões e de outras mais que devem lhe aflorar os sentidos neste momento, com certeza você irá encontrá-las em Admirável Mundo Novo!
“Mas o valor de uma coisa não está na vontade de cada um. A sua estima e dignidade vêm tanto do seu valor real, intrínseco, como da opinião daquele que a tomou”
(Tróilo e Créssida, II, 2)
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